terça-feira, 22 de novembro de 2011

Até já Rebeca















Se não saltas tu, salto eu.
Saltei, vou chegar primeiro e descobrir o quão fundo este frasco de maionese é. Não voltei a falar com a Rebeca, não lhe pude contar a grandiosidade do salto e a sensação de liberdade sentida. Desculpa, pensei. Não devia tê-lo feito. Em grande parte das coisas tens razão e nesta nem sequer existe um "se".
As pedras deixaram-me inconsciente e a corrente levou-me para o infinito. Rebeca chora lá em cima, vejo tudo nublado, parece que estou morto. De facto estou, apesar de continuar a ver as sirenes dos bombeiros, os mergulhadores a prepararem-se para me tentar resgatar, não consigo reagir. A inércia apoderou-se de mim.
Primeiramente os meus pensamentos só se direccionavam para aquilo que sentia por Rebeca, nada mais me ocorria, estava mentalmente bloqueado.
Apaguei de vez e a temática mudou. Percebi realmente o que é a morte e é bem diferente do que o que o senso comum afirma ser.
Dou neste momento ênfase ao que defacto fui e áquilo que fiz. As pessoas que me rodeavam, a vontade que tinha de viver e o medo/curiosidade que se apoderava de mim dentro de autocarros filosóficos.

Durante o meu tempo de vida sonhei com tudo aquilo que gostava mesmo de realizar. Concretizei muitos dos sonhos que planeei mas acima de tudo desfrutei de coisas estúpidas, inacreditáveis. Por vezes esqueci-me de dar valor ás pequenas coisas e secalhar ás grandes também. Sonhava constantemente que quando tinha oportunidade de realizar esse sonho, não lhe dava o valor necessário. Denotativamente era conhecido por ser pequeno e pouco mais. Conotativamente poucos me conheciam, sempre fui reservado em tempos que considerei fulcrais, motivado e irrequieto em tempos de maior alegria. Nunca fui excêntrico, mas fiz algumas excentricidades. Curiosamente Rebeca foi das coisas mais excêntricas que fiz. Apaixonei-me e perdi-me no tempo. Não pus de lado o que considerava importante mas dei à miúda umas quantas coisas boas. Não tive filhos nem casei.
Agora estou morto e da morte espero ainda mais que da vida. Desta vez não poupo dinheiro para viajar porque me encontro numa viagem constante, vejo tudo de cima, controlo o que sou e faço, sem medo, o que durante vivo não fiz.
Neste preciso minuto estou com o Pedro,mortos, num clube de Strip a comer um frasco de Maionese e a jogar snooker.

-Pedro passas-me a rebeca? A mesa é tão grande que com o meu tamanho não consigo chegar ás bolas. Preciso mesmo de um auxiliar.

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