domingo, 31 de outubro de 2010

Hora de Sábado









Trazido de uma sexta-feira acompanhada pela luz ofuscante do computador no quarto, escuro, onde o ar é mais pesado que as proprias palpebras, olhando de cinco em cinco minutos para as horas, perguntando-me se estaria na hora de ir fumar o cigarro que tanto espero. Por cada passa dada no cigarro segue-me a confusa consciência de todas as outras. De que valeu uma noite compoturizada se poderia estar noutro lugar, onde a consciência não se revela importante, ou nem sequer se revela. Estar num carro monótono, abafado por mentalidades positivamente críticas.
Quase no ultimo bafo do cigarro consciente, consigo mesmo entrar no pensamento que estava a ter. Estou agora no carro.
Estranho sentimento este, que me interroga. Como é que neste carro apertado me sinto mais confortável que num quarto imenso onde só eu me encontro? Talvez porque a ideia de conforto nao se redime só a um estado fisico, mas tambem a uma questão afectiva. Orgulhoso de quem está perto, aproximo-me ainda mais e descubro que já fomos bem mais pequenos. Não considero ninguém crescido mas admito que já cresci. Há um tempo eram brincadeiras, criançadas e risadas estúpidas. Agora são brincadeiras, criançadas e risadas que quase tocam a maturidade. Não a atingem mas dão para crescer. As opiniões dispersam-se e com toda a vontade que tenho de as ouvir, a preocupante hora de ir para casa faz com que desligue de algumas. Nesse mesmo momento reparo que o camião da recolha de lixo ainda não passou. Debatendo isto dentro do embaciado carro chegamos ao concenso de que a hora de sábado tem mais uma. Ou seja vinte e cinco reunidas num dia.
Coisa rara. Infelizmente. Certamente haverá mais. Apenas teremos de encarar os dias de vinte e quatro, como de vinte e cinco. E quem de vinte e cinco tira? Perde uma hora, perde um dia como o de hoje.
2+4 = seis horas da manhã, apago o cigarro e espero pela hora de Sábado.


In Carro, Francisco Martinho, Inês Atienza, Miguel Rosa, Ricardo Almeida, Rodolfo Feitor, Ruben Rodrigues, Tiago Secca, Tomás Batarda, 2010.

(Alfabeticamente organizado e redigido na hora 25 de Sábado)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Numeros










De nove até um e de um até nove, o carrossel anda mas continua no mesmo sitio. Estático, pleno e pasmado perante o que se observa. Em negativos representa-se o que em positivos será verdadeiramente conhecido, descobre-se mas cobre-se a verdade e destoa-se o pensamento. Estou a escrever à toa, sem nexo, sem lógica aparente. Na verdade não é só uma irracionalidade evidente, é intrínseca e permanente. Um dia destes escrevo uma história que relacione o quotidiano com algo culturalmente conhecido e com isto deixo-me de teorias abstractas que de nada servem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Começando a contar a partir do dia de hoje faltam exactamente oito dias para podermos fechar o andar.

\\

De que que serve esse teu egocentrismo
Se não és ninguem sem um grupo

\\

domingo, 17 de outubro de 2010

Psicologicamente mal jogado

Psicologicamente mal jogado é um acto praticado por alguém que está demasiado dentro do assunto e o encara de forma involuntariamente irracional. Um acto irreversível que passa a fazer parte do que somos hoje, ou o que fomos no quotidiano.

In Público, Catarina Coutinho e Miguel Rosa

Ricardo Reis-
















Cada dia sem gozo não foi teu

Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000

Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Tantos,
Sem ter perdeste
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pontos de?

Vejo duas sombras, ambas desenham na parede, eu sentado penso qual o ponto de vista correcto. Será que há correcto? Penso e escrevo, observo e concentro-me mas desconcentro-me no momento a seguir. Deparo-me com uma (ir)-realidade que me baralha e destoa do que sou realmente. O que é que sou, o que é que sei? NADA. E o nada o que é? Confusão desfeita mas não resolvida, baralho pensamentos confundo-me mas continuo a pensar. Pensar cansa mas resolve. São apenas frases feitas sem nexo aparente para quem as lê, mas bem interpretadas por quem as sente. O que sinto hoje? Sei lá é a resposta habitual, é o desespero (ainda imaturo mas provavelmente eterno) de quem tem ambição de ser alguém. E o ser alguém o que é? Olha sei lá o que é.
Fazes OFF e ficas na mesma porque sou eu que escrevo e tu não vais perceber. Sabes quando te vês como alguém que vê e se apercebe antes dos outros? Mesmo apesar de por vezes errar?
Nada dito, nada feito, faz ON e cria o teu mundo, baralha-te com opiniões que te fazem sentido mas que nem todas vais poder captar e agir dessa forma. Corrige-te, altera-te, não sintas, faz como os outros querem e não tenhas opinião. Isso sim é viver de ilusão.
Baralhado? Até eu fico ao escrever relei-o o que escrevo para justificar cada mudança de parágrafo que faço. Não te corre nada por a alma? A mim vai correndo, escorrendo e enchendo a cabeça. E viver o que é? Viver é acreditar que um (in)-determinado tempo te define como pessoa, como ser que acredita em algo e funciona por etapas com a finalidade de alcançar um objectivo. Pá pensa no que queres mas não ambiciones sem achares que chegas lá, descobre e procra o teu caminho, mas não te deixes ser pisado. Deixa só que te pisem enquanto tu sabes que está a pisar a priori. Ganha tino e atina, cresce e sente algo diferente do que o que já sentiste. Procura o teu ponto de vista, o meu interessa? Provovavelmente não.